por Celso de Arruda ( Jornalista, Filósofo, Psicanalista, Teólogo)
A obra-prima literária "Dom Quixote", escrita por Miguel de Cervantes, transcende sua natureza como mero romance de cavalaria, oferecendo uma profunda exploração das complexidades humanas e da busca pela verdade em um mundo permeado por ilusões. Por trás das façanhas absurdas e das visões idealizadas do protagonista, reside uma análise filosófica rica que incita o leitor a questionar a relação entre realidade e imaginação, sanidade e loucura, e a própria natureza da verdade.
A Dualidade da Realidade e da Imaginação
Ao longo da narrativa, "Dom Quixote" desafia a distinção entre realidade e imaginação. O protagonista, enlouquecido pela leitura excessiva de romances de cavalaria, escolhe adotar a identidade de um cavaleiro andante, Don Quixote, e enxerga moinhos de vento como gigantes a serem derrotados. Essa fusão entre a realidade objetiva e a percebida por Don Quixote levanta questões sobre a validade de nossas percepções e o quanto elas moldam nossa compreensão do mundo.
A Loucura como Portal para a Verdade
A figura de Dom Quixote também oferece uma perspectiva intrigante sobre a relação entre loucura e verdade. Sua loucura é paradoxalmente uma expressão de sinceridade, pois ele se recusa a aceitar a realidade mundana e abraça uma visão idealizada e nobre do mundo. Sua loucura o impulsiona a buscar uma verdade mais profunda, desafiando as convenções sociais e as limitações impostas pelas aparências.
A Sátira à Sociedade e à Razão
Por meio das ações de Dom Quixote, Cervantes critica a sociedade e a razão de sua época. A figura de Dom Quixote, embora seja considerada louca, muitas vezes se comporta de maneira mais nobre e digna do que as pessoas "sãs" ao seu redor. Isso questiona os padrões de moralidade e a própria natureza da razão, sugerindo que o mundo da fantasia pode conter verdades que escapam à lógica convencional.
A Busca pela Autenticidade e Identidade
Dom Quixote, em sua jornada, também se esforça para descobrir sua verdadeira identidade. Sua busca por "Ser Quixote" e sua posterior revelação de que se chama Alonso Quijano ressoam com a busca humana universal pela autenticidade e pelo autoconhecimento. Essa busca interior transcende a loucura aparente de Dom Quixote e ecoa com a filosofia existencialista que se concentraria em questões similares séculos depois.
Conclusão
"Dom Quixote" de Cervantes se estabelece como uma obra atemporal que continua a intrigar e provocar reflexão. Suas reflexões filosóficas sobre realidade, imaginação, loucura e verdade ressoam além das páginas do romance, incitando os leitores a explorar a relação entre percepção e conhecimento, e a considerar a possibilidade de que a verdade pode ser encontrada nas formas mais inesperadas. Através das aventuras de Dom Quixote, Cervantes oferece um convite duradouro para contemplar as complexidades da existência humana.
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